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14 de abril de 2008

Cultura encravada
no centro da cidade


Palácio das Artes: referência nacional



No oásis do Parque Municipal Américo Renné Giannetti, o Palácio das Artes (PA) parece frutificar cultura. Quase quarentão (foi inaugurado em 1971), o maior espaço multi-cultural da cidade segue firme em sua tarefa disseminadora da arte. Seus 18,5 mil metros quadrados abrigam uma diversidade que vai do Centro de Formação Artística (Cefar) às Galerias; do Cine Humberto Mauro ao Grande Teatro, com capacidade para 1700 espectadores.

Oásis no parque, no meio da selva urbana
(foto: internet, autoria não identificada)


O gigante cultural não tem apenas a função de representar cultura: também cria e incentiva. Os editais para utilização de suas salas, teatros, galerias e jardins comprovam a vocação: são disputados palmo-a-palmo por artistas das mais variadas orientações e por alunos e ex-alunos do Cefar.


A programação do PA conta também com a participação dos Corpos Artísticos da casa. A vantagem é dos belorizontinos, que podem assistir o virtuosismo do Coral Lírico de Minas Gerais, da Companhia de Dança do Palácio das Artes e da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Enganam-se, entretanto, os que imaginam terminar aí as formas de representação cultural.


Ainda há os Jovens Talentos: Coral Infantil, Ballet Jovem e Orquestra Jovem. Acabou ? Longe disso. Nada acaba no PA. É um ciclo que conta ainda com shows musicais diversos, óperas, festivais de cinema, teatro, palestras e mostras de artes plásticas, como a recente exposição Gringo Cardia de Todas as Tribos, que levou 30 mil visitantes em pouco mais de um mês de permanência na Galeria Alberto da Veiga Guignard.


Galeria Genesco Murta
(foto: FCS/PA divulgação)


A Grande Galeria homenageia um gênio: Alberto da Veiga Guignard
(foto: FCS/PA divulgação)


Usina cultural


Tudo impressiona, os números são grandiosos. A presidente da Fundação Clóvis Salgado – que administra o Palácio das Artes e a Serraria Souza Pinto – Lúcia Camargo, deixa escapar uma ponta de orgulho quando projeta-se a imagem do PA no cenário nacional. “Encontramos em todo o país, e, mesmo, no exterior, artistas formados aqui, ou que têm no Palácio a sua referência. É a 'Escola Mineira de Espetáculos' que não existe no papel, mas imbrica-se em toda a cultura nacional”, afirma.


Grande Teatro: 1700 lugares para o melhor da cultura brasileira
(foto: internet, autoria não identificada)


Aliás, ela é expert em produção cultural. Jornalista e pedagoga é apenas um preâmbulo. Sob o compromisso e a sensibilidade de Lúcia Camargo ainda estiveram – entre várias outras atribuições – a Secretaria de Estado de Cultura do Paraná, a Secretaria Municipal de Cultura de Curitiba, a direção artística do Theatro Municipal de São Paulo e a presidência da Rádio e TV Educativa do Paraná.


Lúcia Camargo põe a experiência em trabalho constante a favor da cultura
(foto: Paulo Lacerda/FCS/PA)

Então Lúcia é um ser eminentemente político ? Crassa falha de avaliação. O mais adequado seria Ente Cultural. Ao confrontar Lúcia com seu histórico profissional, o que ganha destaque é a interseção. É dessa metáfora matemática que brota a simplicidade objetiva que norteia a administração da Fundação Clóvis Salgado. “A importância dada pela secretária estadual de Cultura, Eleonora Santa Rosa, ao PA é a de uma usina geradora de cultura. Nossa função não é só informar; é, sobretudo, formar platéias competentes. Propiciar todo tipo de manifestação artística. Além do trabalho que se vê entre as paredes do PA, há toda uma circulação dos Corpos Artísticos e do acervo pelas cidades mineiras”, define Lúcia Camargo.


Para todos


Geralmente, a boa arte é associada ao custo alto. Os grandes espetáculos em turnê, sobretudo de teatro e música popular, têm preços salgados. Lúcia Camargo esclarece que há duas características a ressaltar. A primeira é a do aluguel dos espaços do Palácio das Artes, que corresponde a 70% da ocupação anual. “Nós não definimos os valores dos ingressos nesses casos, apenas fazemos cumprir os descontos legais para estudantes e idosos. No entanto, temos que lembrar de que o aluguel dá sustentabilidade às demais atividades artísticas, bem como à própria administração financeira”, esclarece.

O segundo aspecto do qual fala Lúcia Camargo ocorre em decorrência do primeiro: os 30% restantes da ocupação da casa são, de certa forma, subsidiados. É isso o que possibilita a característica popular, geralmente esquecida pelos críticos. A programação do mês de abril, por exemplo, tem preços pra lá de convidativos a qualquer tipo de público, isso sem falar nos espetáculos de altíssimo nível com entrada franca, propiciados, principalmente, pelos mantenedores da Fundação Clóvis Salgado, notadamente a Vale, a Usiminas, a Cemig e a Tim.


Saborosas confidências


O universo do PA comporta ainda livraria, café, biblioteca, musicoteca e loja. A Usina Cultural também atua em parceria com universidades, desenvolvendo cursos de pós-graduação na área de gestão cultural e promove atividades lúdicas nas áreas de música, artes visuais e dança.

Antes de encerrar, Lúcia Camargo faz duas confidências. Entre os dias 1º e 4 de maio, o Palácio das Artes terá a Semana do Trabalhador: todos os espetáculos da programação terão ingressos a R$ 1. Já para 2009, está bem encaminhado o projeto
Ano França-Brasil, com programação cultural variada que propiciará não só um passeio pela cultura francesa, como também o intercâmbio cultural. “Não há o que inventar: tudo é trabalho, garra e entusiasmo. Sempre atuando com uma equipe competente”, define a presidente da Fundação Clóvis Salgado.


Confira AQUI a programação do PA.


Em todos os espetáculos pagos prevalece
a meia-entrada, de acordo com a lei.


Para maiores informações,
o telefefone do PA é (31) 3236-7400,
ou consulte o
site.



(Matéria originalmente feita para o Jornal Edição do Brasil)


23 de março de 2008


Dedo de Prosa: um programa bem família *

(Foto: divulgação)


Respeito, carinho

e promoção da terceira idade


Quem nunca assistiu o Dedo de Prosa deveria começar a pensar em rever conceitos. Único programa da televisão brasileira voltado para a terceira idade, a atração é produzida em BH e apresentada em rede nacional.


O mineiro Juarez Elisiário está no ar há quase oito anos e é conversando com o jornalista que percebe-se a razão do sucesso do programa. Afinal de contas, valorização, inclusão e respeito não são artigos facilmente encontrados na mídia. “A gente só vê falar no idoso em propagandas de turismo e de crédito consignado, um absurdo”, indigna-se Juarez. Segundo o comunicador, a televisão brasileira não tem interesse na realidade do ser humano.

“Realidade tem ruga, tem mãos trêmulas, as vezes precisa de aparelhos para facilitar a locomoção, mas também tem os olhos fundos do
conhecimento e as mãos calejadas de trabalho”, ensina Elisiário.

(Foto: divulgação)
Juarez Elisiário: MELHOR IDADE na mídia

O artigo 24 do Estatuto do Idoso determina que os meios de comunicação mantenham programação dedicada a esse segmento da população. Quando a lei entrou em vigor, em janeiro de 2004, o programa já havia completado 3 anos no ar. Pode-se dizer que Elisiário estava, pelo menos, 480 km na frente. Não é apenas a distância entre a capital e a cidade de Capelinha, onde nasceu. É muito mais. Representa a trajetória de um idealista que traz a certeza da missão que deve cumprir. As constantes visitas à terra natal sempre remetiam aos encontros de família, nos quais a presença da Tia Ana e dos avós maternos, César e Flor de Maio, alimentava o jornalista com um propósito: o respeito pela idade da experiência.


Capelinha-MG: assista aqui a primeira parte do documentário "Causos" e aqui, a segunda.


Assista um trecho do DEDO DE PROSA


(Foto:divulgação)
Plenitude como forma de promoção
da Terceira Idade



Quando a colcha vira rede


Não há segredo no sucesso do Dedo de Prosa. É a sinceridade, a simplicidade e a dedicação que transmitem o desejo de fazer sempre melhor. O público percebe e projeta suas esperanças no programa.


Também apresentado no rádio, o Dedo de Prosa tem seu ponto alto nos quadros especiais (reflexão, notícias, Estatuto do Idoso, etc) e nas músicas dos bons tempos, valorizadas no programa. Isso sem falar na participação direta do ouvinte.


O Dedo de Prosa na TV, embora com linguagem diferente, mantém o foco na manifestação cultural. As caravanas que lotam o estúdio apresentam danças, músicas e muito trabalho produtivo. “A participação do público não é meramente estrutural: funciona como uma alavanca que gera o sentimento da possibilidade. É uma bola de neve. Ao ver-se representado na TV, o idoso recebe o incentivo para fazer igual”, explica Juarez.


(Foto: divulgação)

Colcha da Fraternidade alavanca

o efeito BOLA DE NEVE


Esse efeito “bola de neve” é percebido na Colcha da Fraternidade. Todos os dias a produção recebe cartas dos mais diversos locais do país com dezenas de quadrados feitos em tricô que são unidos por uma voluntária. O resultado final, sob a forma de lindas colchas, é remetido para instituições variadas em diferentes partes do Brasil. Assim, o que era colcha transforma-se em rede. Rede de incentivo e solidariedade. Quatro dessas colchas já foram entregues para pessoas muito especiais: Dom Serafim Fernandes de Araújo, na época arcebispo metropolitano de Belo Horizonte; Dom Walmor Oliveira de Azevedo, o atual arcebispo; Dom Geraldo Magela Agnelo, então presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e nada menos do que o saudoso João Paulo II, o Papa do Povo.


Valorização do idoso: audiência conferida na praça



No Sertão do Seridó, cidade de Carnaúba das Antas (RN), a produtora do Dedo de Prosa, Rita de Cássia foi fazer a entrega de mais uma Colcha da Fraternidade. Imaginava um grupo de, no máximo, seis idosos. A surpresa foi encontrar a cidade toda enfeitada, com muita gente na rua e banda de música na praça. Que confusão ! Demorou um pouco para perceber que toda aquela movimentação era... para ela, para o programa. A cidade parou para ver a entrega solene.


Não é um causo, embora pareça. Nem tão incomum. O carinho gerado pelo Dedo de Prosa parece não ter tamanho. É o que se comprova nas cartas que chegam, como a do mineiro Mateus Nunes Coelho:

...Quero aqui enaltecer
nossa Minas, a alterosa
que ensina a viver
só com um dedo de prosa.

Que momento de alegria,
onde a pessoa idosa
se refaz e se recria,
só com um dedo de prosa...”


Ou, ainda, em um pedido simples de atenção, feito por Maria Cézar, de Patos (PB):


...gostaria que desse um alou para a minha tia Vicentina Cézar, que no dia 28 de outubro vae completar 103 anos de vida, totalmente lúcida. Ela não perde seu Programa Dedo de Prosa”.


É como diz Juarez Elisiário: “simples”.


Realizar é a tônica do Envelhecimento Ativo, recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). De acordo com Juarez Elisiário, o tempo do velhinho aposentado, de pijama pela casa, acabou. “O programa tornou-se uma alavanca no debate sobre o envelhecimento ativo. A valorização passa obrigatoriamente pela qualidade de vida”, garante Elisiário.


(Foto: divulgação)

Atividades físicas e mentais são recomendações

da OMS para um Envelhecimento Ativo


Os institutos de pesquisa podem aferir a audiência, entretanto para perceber seu calor só há uma forma: estar no meio dela. O Dedo de Prosa no Interior e o Show da Fraternidade já levaram Juarez à cidades tão culturalmente diferentes quanto geograficamente distantes: Montes Claros, Natal (RN), Arara (PB) e outras. Além disso, a Dedo de Prosa Produções promove o Encontro Nacional Dedo de Prosa da Melhor Idade. Um mega-evento que propõe uma programação variada durante alguns dias. Realizado desde 2005, o encontro repete-se em 2008. Já tem data e local: Caldas Novas (GO), entre 24 e 27 de abril.


Saiba mais sobre o 4º Encontro Nacional Dedo de Prosa da Melhor Idade clicando aqui.


Nada ocorre por acaso. O Dedo de Prosa trabalha e oferece muito. Cumpre uma tarefa social e recebe, em compensação uma dose de carinho que incentiva a produzir mais.

Seria outro sintoma do efeito “bola de neve” ?

Provavelmente: Ana Maria, primeira filha de Juarez (o segundo neném, João César, é esperado para julho), talvez seja uma das crianças mais queridas do mundo. Quando nasceu, ela recebeu cerca de 300 mimos das vovós e dos vovôs que não se acanham de, em cada carta, mandar beijos e desejos de saúde e felicidade para a ”sua netinha”.


Dedo de Prosa na mídia


Na Tv

Domingo, ao vivo, entre 16.00h e 17.00h pela
TV Horizonte e pela TV Nazaré,
de Belém do Pará.


Também aos domingos, a Rede Vida de Televisão
transmite entre 14.00h e 15.00h,
em rede nacional, o programa gravado.


A TV Horizonte também reapresenta o Dedo de Prosa
em sua grade de programação: domingo, 22.00h;
segunda, 05.00h e 11.00h; quinta, 07.00h.


No rádio

Rádio América AM (no dial: 750 kHz), em BH,
todo domingo, das 19.30h às 21.30h.


Na internet

www.programadedodeprosa.com.br


Contatos

E-mail: dedodeprosa.tv@uol.com.br


Cartas para: Rua Riachuelo, 1452, sl. 205,
Padre Eustáquio, BH/MG,
Cep: 30720-060

Telefone da produção: 31 3413-7507


* Matéria parcialmente publicada dia 22 de março, em Belo Horizonte, no jornal Edição do Brasil.



Ouça abaixo a primeira parte da entrevista gravada
com Juarez Elisiário para o programa de rádio
Companhia Legal, da Taquaril FM de Belo Horizonte.



Aqui, a segunda parte da entrevista.




(Matéria originalmente feita para o Jornal Edição do Brasil)

26 de novembro de 2007

Alguém escreve ao coronel ?
Uma outra forma de perceber a história recente do Brasil

Alexandre Campinas, Anne Lages e Carolina Ávila


É necessário chegar na hora marcada. Afinal, ninguém desconhece o caxiismo militar. Em todos os sentidos: Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, o Pacificador – há contestação histórica, que joga a alcunha na conta de uma mitificação interessada –, como se aprende nas aulas de história do Brasil, é o patrono do exército e paradigma nacional do comportamento certinho, impoluto. Sobre o caxiismo, disse o sociólogo Gilberto Freyre: “não é o conjunto de virtudes apenas militares, mas de virtudes cívicas, comuns a militares e civis”, portanto a pontualidade está incluída.

Na subida da engarrafada Avenida Raja Gabaglia, em Belo Horizonte, a caminho da casa do coronel, olhamos para o relógio. Faltam cinco minutos para a hora marcada. A solução imediata é telefonar, avisando sobre a possibilidade de um pequeno atraso. Ponto para a empatia. Rigorosamente pontuais, tocamos a campainha em cima das 13.30h. Bela casa. Dois andares, mangueira carregada no jardim. Na garagem, dois carros rigorosamente iguais dão a noção de que encontraremos personagens sistemáticos pela frente. Dona Graça, a esposa, jus ao nome, recebe-nos com hospitaleira simpatia. O coronel desce as escadas e convida-nos a subir com ele para o escritório. É Carlos Cláudio Miguez, descendente de imigrante espanhol, homem na faixa dos setenta anos, pele muito clara e face rosada.

Carlos Cláudio Miguez em seu QG

(Foto: Anne Lages)


Flamengo, livros e ideologia

No escritório, a estante repleta de livros com temática única (reacionária como diriam os que não acreditam na possibilidade de convivência política das diferenças ideológicas – e, a bem da verdade, também Carlos Miguez alimenta essa polarização) indica com clareza o pensamento do dono da casa: liberal de direita, na linha preconizada pelo falecido economista Roberto Campos. O ambiente é completado com antigas fotos dos tempos da caserna, medalhas e uma bandeira do Flamengo, clube de coração do militar. “Meu pai levava-me para o campo da Gávea para assistir os jogos. A bandeira, velhinha, que guardo com carinho, é daquele tempo”, entusiasma-se com suas recordações de Biguá, Pavão, Dequinha, Bigode e outros craques rubro-negros.

Flamengo - 1948

Aos poucos, o menino criado no imenso areal transformado na Copacabana dos anos 40 e educado entre os classemedianos colégios Marista e Militar, ambos na Tijuca, Rio de Janeiro, revela a construção do homem e a formação de uma ideologia. Em tempos de pluralidade política e diversidade de opiniões, o coronel Miguez parece uma exceção, isolada em um passado autoritário recente. Nem tanta exceção e muito menos isolamento. Escrevem, sim, ao coronel e o coronel também escreve. Muito. Faz parte de um grupo de militares – exército, principalmente – e civis que dedica-se a uma causa: afastar os perigos do comunismo do Brasil. Para isso, oficiais da ativa e reserva, jornalistas, filósofos, artistas e sociólogos, colaboram para o jornal do Grupo Inconfidência, editado por Carlos Miguez, que também edita livros.

“Põe aí na sua matéria: o Sirkis estava certo quando escreveu em seu livro, Os Carbonários, que nós vencemos a guerra contra o comunismo, mas eles venceram a batalha da mídia”, reclama o coronel dizendo que jornais, tv's, rádio, revistas e internet estão tomados por um pensamento que, sub-repticiamente, constrói a ideologia socialista, nos moldes propostos pelo pensador Gramsci. “Vocês, jornalistas têm o dever de contar a verdade, sem partidarismos. Hoje tudo está tomado por eles (os socialistas), até nas escolas: os livros didáticos cometem grandes atrocidades. Denigrem a imagem de Caxias, realçam o ditador paraguaio Solano Lopez, exaltam as ditaduras comunistas de Cuba, China, Nicarágua... Os livros de história adotados e distribuídos pelo MEC são a porno-marxização da educação”, polemiza Miguez.

1964

Quando o assunto é o golpe militar de 1964, o coronel procura esclarecer o seu ponto de vista. Segundo afirma Miguez, não houve golpe, muito menos de urdidura militar. A visão do coronel é a de que desde a renúncia de Jânio Quadros (“um louco”), em 61, o país vivia sem mando, aberto a qualquer tentativa de expansão do comunismo em terras brasileiras. João Goulart, o vice-presidente de Jânio Quadros, assumiu um governo parlamentarista por força de uma conjuntura que impôs aquela forma de regime como a única viável para que ele ocupasse a presidência (Tancredo Neves foi o primeiro-ministro) e que, logo depois, voltou à estrutura presidencialista por exigência de um plebiscito. Carlos Miguez afirma que João Goulart (Jango) não tinha condições para estar a frente de um governo. “Era um estancieiro bonachão, um banana nas mãos do cunhado Leonel Brizola e sua turma. As raposas iriam transformar isso aqui numa ditadura comunista” diz Miguez, destacando que a sociedade civil e o empresariado já não agüentavam tantas greves, tanta confusão e a situação econômica deteriorada. Por isso as forças armadas intervieram.

Uma opinião

Veja outra opinião

Coronel Miguez: "Jornalistas devem contar a verdade..."

(Foto: Anne Lages)

“Era uma situação complicada, perigosa. A classe média não suportavam mais e pediu aos militares a intervenção. Houve as enormes passeatas pelo Brasil afora. Eram as Marchas com Deus Pela Família e Pela Liberdade. Não houve golpe, e sim um movimento contra-revolucionário contra os comunistas e baderneiros. Tanto que a sociedade apelidou o movimento de A Redentora. Das janelas das casas, as famílias saudavam a contra-revolução, o que prova o que afirmo”, entusiasma-se Miguez.

Segundo o coronel, o governo da Junta Militar e o do general Castelo Branco estavam preparados para sanear e devolver o país em condições para as eleições de 65, mas começaram as disputas políticas pela presidência. Carlos Lacerda, governador da Guanabara (que apoiou 64) e Juscelino Kubistchek acabaram com os direitos políticos cassados, junto com várias outras pessoas. A partir daí, ainda segundo Carlos Miguez, o que se seguiu foi uma tentativa de badernização do Brasil. Estudantes, operários, militantes, políticos tentaram tumultuar o clima democrático reinante o que, ao longo do tempo, resultou no Ato Institucional nº 5, o AI-5, em dezembro de 1968, radicalmente restritivo. “Era a forma de combater os subversivos, terroristas que matavam militares, policiais e gente comum em atos de guerra”, justifica o coronel.

Anos de chumbo

Quando a entrevista encaminha-se para os anos mais duros do regime militar, o coronel Miguez é taxativo: “Houve uma guerra. Tudo o que fizemos foi necessário, imperioso para aquele momento. Os terroristas com seus assaltos, seqüestros e ações iriam acabar com o país, com a paz, com o enorme desenvolvimento econômico do Brasil”. Pausa para um sorriso de Carlos Miguez. É a neta que traz, graciosamente, um cafezinho. Arrumamos a bandeja desajeitadamente e o coronel sugere que uma colega jornalista sirva o açúcar, afinal, diz Miguez, “elas têm muito mais jeito para essas coisas”.

Nosso entrevistado aproveita a pausa para mostrar edições passadas do jornal Inconfidência. “Olhem aí o artigo do Ustra (cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra) ! Ele não tem como se defender daquela moça que o acusou de torturador. Só aqui no jornal. A imprensa está toda tomada. Foi tudo mentira daquela atriz... A verdade está toda aí”, reclama o coronel. O caso é o da atriz Bete Mendes que, participante de uma comitiva do governo brasileiro – na época do presidente José Sarney – em visita ao Uruguai, denunciou o então adido militar naquele país, o cel. Ustra, como o homem que, pessoalmente, a torturou. “Houve alguma coisa disso, de torturas e coisa e tal. Tenho que relembrar: era uma guerra e o país estava em risco; mas tem muito exagero nisso tudo. Tem a guerrilha do Caparaó, a guerrilha do Araguaia. Numa guerra mata-se e morre. Agora querem inventar o bolsa-terrorismo. Premiar os inimigos do Brasil. Os terroristas entram com uma ação na justiça e passam a receber mesadas vitalícias, além de indenizações milionárias”, revolta-se.

Aproveitamos o gancho. E Lamarca ? O coronel Miguez não morde a isca da provocação. Jornalistas... Comenta genericamente o absurdo da premiação póstuma, reclama dos valores pagos à viúva, filhos e à antiga companheira do capitão do exército, que um dia entrou para a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) levando consigo armas do quartel no qual servia, em São Paulo. Um desertor, segundo nosso personagem. “Olhem aí no jornal. Está tudo escrito aí”, tenta escapar por uma tangente. Insistimos. E a possibilidade de uma promoção póstuma a general ? “Ele nem chegou a coronel. Isso foi coisa política, para aumentar a tal indenização... agora vêm com essa história de general... revanchismo. Coisa do Tarso Genro”, encerra a questão aproveitando sua própria menção a um quadro do PT para comentar o nível de corrupção e desmandos do atual governo. “Aquele moço, o Bruno Maranhão, que comandou a invasão do Movimento de Libertação dos Sem-Terra (MLST), ao senado é da direção do partido... Um absurdo. E ainda por cima, as estatais são cabides de emprego para os militantes petistas”, revolta-se.

Carlos Lamarca


O liberalismo do coronel também é radical. Tão radical que ele considera os falecidos generais Golbery (do Couto e Silva, orquestrador do projeto de abertura política – lenta , segura e gradual – a partir de 1974) e Geisel (Ernesto Geisel, presidente do país entre 1974 e 1978) como estatizantes, responsáveis pelo fim do desenvolvimento econômico obtido até então (o Milagre Econômico teve vez no início da década de 70, baseado no desenvolvimento industrial brasileiro graças à grande oferta de combustível barato e crédito praticamente infinito. Terminou com a Crise do Petróleo e uma enorme dívida externa que acabaram pondo fim na era desenvolvimentista). Ele prega a privatização para que os empresários retomem o crescimento brasileiro.

O Feiticeiro (Golbery) e o Sacerdote (Geisel): estatizantes demais


Democracia



Pode ser que muitos discordem de Carlos Cláudio Miguez; afinal, atualmente, cada um escolhe sua ideologia e a pratica livremente. Entretanto deve-se compreender a postura corporativa do coronel como a de um homem ligado fielmente à ordem das Forças Armadas. Instituição que necessita de uma razoável unidade de pensamento e alta hierarquização para atingir os objetivos de defesa do país contra os inimigos externos. Também pode-se entender o coronel pela maior ligação de sua arma, o exército, com os problemas vividos nas décadas de 60, 70 e 80. Eram os seus camaradas que estavam a frente dos eventuais combates, perdendo fileiras e lutando por um ideal. Assim como também ocorre com o outro lado da mesma história. Outros militares consultados garantem que os radicais não são maioria nas corporações, porém as histórias e as feridas dos anos de governo militar ainda circulam vivas na caserna.

É plenamente garantido ao coronel Miguez, aos seus companheiros do Grupo Inconfidência, aos participantes do Grupo Ternuma (Terrorismo Nunca Mais), entre outros, o direito à defesa de suas convicções e de seus ideais. Assim como também deve acontecer com os pensam de forma diferente. São as vantagens da democracia política. Despedimo-nos de Carlos aproveitando uma carona Avenida Raja Gabaglia abaixo. Ao deixar-nos próximo à uma agência dos Correios, onde iria tratar da postagem do jornal Inconfidência, o coronel Miguez fez um pedido: “Podem por isso na sua matéria: a situação, hoje, está pior do que em 64. Podem por isso aí !” É o velho coronel que, ao contrário do personagem de Garcia Marquez, está forte, vigoroso e acompanhado em seus 70 anos.

Veja mais fotos de autores diversos

18 de junho de 2007

Concurso internacional de fotografias
homenageia Niemeyer
No centenário do arquiteto, prêmio será de 5 mil Euros


Em 15 de dezembro deste ano, Oscar Niemeyer completará 100 anos. Para homenagear a data, um grupo de cidadãos, empresas e instituições portuguesas da cidade de Funchal, na Ilha da Madeira, organizou um concurso de fotografias que terá como tema a obra arquitetônica de Niemeyer.

Arte sobre pilotis e pérgula da piscina no Pestana Casino Park:
estilo inconfundível (foto: divulgação)


O arquiteto é o responsável pelo projeto do Pestana Casino Park, de 1966, na cidade portuguesa, que também entra na reta final da comemoração dos 500 anos de existência. Além do concurso, os funchalenses reeditarão o livro O Nosso Niemeyer, de Carlos Oliveira Santos. As inscrições para o concurso poderão ser feitas até o dia 30 de agosto. O vencedor do "Grande Prêmio Niemeyer 100 Anos" receberá 5 mil Euros.

Arquitetura global

A arquitetura de Niemeyer está presente em todo o mundo. Da sede do Partido Comunista Francês ao Colégio Cataguases (MG), do complexo arquitetônico da Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, ao balneário da cidade independente de Postdam, leste da alemanha. Sem esquecer a maravilha criativa que é o conjunto de obras - de arte - que compõe Brasília.

Igreja de São Francisco de Assis faz parte do complexo arquitetônico

da Lagoa da Pampulha em Belo Horizonte (foto: Cristiano Quintino)

Ao completar 100 anos de vida, Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares receberá muitas homenagens. Serão exposições, documentários e uma infinidade de eventos que podem ser acompanhados pelo site feito em homenagem ao centenário.

Oscar Niemeyer sob o traço de Fernandes (Santo André/SP)

Regulamento

Para quem deseja participar do concurso de fotografias, vale a pena conferir o regulamento diretamente no site criado para a homenagem em Portugal.

15 de junho de 2007

Artes, artistas,
Artesãos, artesanato

A confusão nossa de cada dia


É comum depararmo-nos com quadros, esculturas, painéis e tantas outras manifestações estéticas. Nossos templos, repartições, praças estão repletos do que convencionou-se nomear de arte, fora os espaços específicos, como museus e galerias. São elementos palpáveis – ou não – destinados a provocar reações: agrado, comoção, irritação, contrariedade, etc.
Também de arte chamamos os penduricalhos que ornam as pessoas, os bibelôs espalhados pelas casas, as "pinturas de compor ambientes", as cestarias e muitos outros objetos do cotidiano, utilizados para tornar mais bela e agradável a nossa caminhada.
(foto: AC, sobre livro do autor)
Trigais III - Carlos Bracher

Paquetá - Di Cavalcanti


Arte ou artesanato ?

Até que ponto o artesanato é arte ? A partir de qual instante a arte passa a ser artesanato ? A quem é dado o poder de rotular, classificar, codificar e estabelecer o que uma coisa e outra são ? E, principalmente, quem dá esse poder ?


Segundo os dicionários, a arte é uma atividade de expressão estética de sensações e idéias. O artista é aquele que pratica uma arte, que revela sentimento artístico, mas também – está lá, no dicionário – um artesão, artífice. E o pai dos burros é definitivo quando a intenção é confundir: artesanato é a arte ou técnica do artesão, que, por sua vez, é definido como um trabalhador autônomo que exerce um trabalho manual. Ou seja, voltamos à estaca zero.


De acordo com o artista plástico Rafael Abreu, o comum é imaginar a arte como um processo de maior elaboração, enquanto o artesanato geralmente é vinculado a um processo repetitivo, elaborado em escala, e, por isso, de rápida execução. "Mas não se pode negar, que em ambos os casos, há sempre uma interferência artística, um momento inicial de criação. Talvez o que torne artesanato, aquilo que, inicialmente foi tido como arte, seja a intenção reprodutiva. A popularização é que dá o cunho artesanal", sugere Rafael.
(foto: AC)
Rafael Abreu entre arte e artesanato
(foto: AC)
Detalhe de bolsa artesanal de Maurília

(foto: AC)
Ímas artesanais de João Lobo ao lado de tela de Gilberto Abreu: convivência harmônica

(foto: AC)

Artesanato: pintura em garrafas de Tamira Abreu,
cartões de Flô e bonecos de Hudson de Souza
Rafael diz que o que confere qualidade artística é a permanência e reconhecimento da obra através dos tempos, as escolas que criou, os estilos que influenciou. "Temos que lembrar que, para a sua época, Van Gogh era apenas um artista de feira, um artesão. Arthur Bispo do Rosário e o Profeta Gentileza eram considerados loucos: um internado, outro, andarilho. Hoje, a análise artística tende a caminhar junto ao contemporâneo e não sabemos no que pode dar, a arte necessita de amadurecimento", afirma.


Gentileza: mensagem e design

Rafael Abreu destaca que grandes artistas começaram como artesãos. De acordo com Abreu, Antonio Poteiro faz juz ao cognome, fabricava potes de cerâmica antes de partir para as cores e de lá, para as telas. Francisco Brennand viabilizou sua arte cerâmica com uma fábrica de revestimentos: pisos, ladrilhos, etc. "Os ceramistas do Vale do Jequitinhonha são artistas fantásticos e nem por isso suas obras – e eles mesmos o fazem – deixam de tomar o caminho do artesanato por uma questão de sobrevivência", explica Rafael Abreu, que começou fazendo pinturas em camisetas.
(foto: AC)
Quadro de Antônio Poteiro

Cerâmicas de Brennand ( Oficina Brennand )


Noiva: cerâmica do Vale do Jequitinhonha


"Não se pode negar que o artesanato surge a partir de um projeto de arte, mas entendo que nem tudo o que se produz em repetições deva ser chamado de artesanato. É apenas uma forma de divulgação maior de um trabalho de qualidade", enfatiza Rafael. O artista relembra as produções em série de artistas de outras áreas e cita como exemplo o escritor francês Honoré de Balzac ou brasileiro Machado de Assis, que reproduziam suas obras de todas as formas possíveis, como meio de sobrevivência. "Seria justo chamar aquela literatura de artesanato ?", questiona Rafael.
A pensar
Artesanato, então, seria a arte em potencial, pronta para explodir, ou tomar outro caminho. Talvez o único padrão capaz de diferenciar arte de artesanato seja a estética. Aistetikós, palavra grega que deu origem a estética, significa "aquilo que é relativo aos sentidos ou sensações". A estética é a filosofia da arte, estuda as relações entre crítica e gosto. Dessa forma podemos sugerir uma classificação ao melhor estilo dos filósofos empiristas, para os quais todo o tipo de conhecimento provém da percepção. O entendimento de arte seria, então, a soma das experimentações individuais e coletivas.
Coisa de Pirandello: Assim é, se lhe parece.